Há pouco tempo atrás citei o Desafio literário e divulguei minha lista de livros, sendo o primeiro - do mês de Janeiro, com o tema romance de banca - a versão de bolso (L&Pm pocket) do livro Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias, do conceituado autor Edgar Allan Poe [1809]. Optei pela escolha por sempre ter interesse de ler mais coisas do mesmo.
O livro reúne, em suas 156 páginas, seis contos excelentes. O primeiro, O demônio da perversidade, conta sobre um assassino à beira da execução sendo afligido por seus demônios, questionando seus próprios atos e até onde a perversidade pode nos guiar. O segundo, Hop-Frog ou Os oito orangotangos acorrentados fala sobre a vingança, sobre a ira que nos domina e até quando nossos limites podem se transformar em atos inimagináveis.
Os fatos que envolveram o caso de Mr. Valdemar fala sobre a experiência do mesmerismo (o ato de hipnotizar) em alguém que está a beira da morte. O gato preto, o meu preferido, conta sobre um homem que movido pelo vício do alcoolismo e pela agoniante presença de seu gato preto começa a enlouquecer gradualmente no decorrer dos dias. Nunca aposte sua cabeça no diabo é a irônica história de um rapaz que, obsessivamente e constantemente, fazia suas apostas baseada em tal frase. O último e que intitula o livro - e, devo dizer, um dos mais geniais - Assassinatos na Rua Morgue, conta sobre brutais assassinatos de mãe e filha numa inóspita rua de Paris, sendo apresentados personagens como o detetive Auguste Dupin, uma clara inspiração a personagens posteriores como Sherlock Holmes e Hércule Poirot.
O que mais me agradou no autor é o fato de transformar fatos aparentemente simples - a presença de um gato preto, por exemplo - em ocorrências bizarras, construindo uma atmosfera pesada e angustiante em cada um de seus contos através de uma descrição intensa, quase palpável, de sentimentos e cenários, as vezes até mesmo usando a ironia, o humor ácido em seus contos - como em Nunca aposte sua cabeça no diabo - geralmente com personagens sempre perturbados por alguma coisa - eternamente perturbados. A narração em primeira pessoa - presente em todos os contos - nos dá uma clareza maior do que o autor quer passar. Em alguns pontos a escrita chega a ser prolixa, mas isto é totalmente relevante devido a época dos contos.
A cada página experimenta-se angústia, horror, choque e até mesmo curiosidade. Penetramos um universo cru determinado pelo autor, sentimos o que ele descreve com perfeição. Essencial para fãs não só do terror psicológico e do suspense, mas para fãs da literatura de verdade.
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Morto até o anoitecer, Charlaine Harris

O livro de Charlaine Harris retrata uma sociedade bem inovadora e realista de vampiros que ganharam o direito de existir - ou, como se diz, saírem dos caixões - depois da invenção de sangue sintético. Circulam livremente entre os humanos, combatendo o preconceito e a exclusão por grande parte de pessoas que ainda não se acostumaram com a idéia. Dentro deste contexto, o vampiro Bill Compton está disposto a se estabelecer em Bom Temps, sua cidade natal - não contando com uma série de inexplicáveis assassinatos, do qual vira suspeito, e o envolvimento com uma bela garçonete telepata, Sookie Stackhouse.
A idéia de vampiros circulando entre humanos normalmente pela criação de sangue sintético é, no mínimo, surpreendente e soberba - principalmente quando se tratam dos típicos vampiros de Morto até o anoitecer - e interessantíssima por abrir espaço a pontos como o preconceito e a exclusão. Na obra de Charlaine Harris, o romance não é um dos pontos principais, o que de certa forma me agradou. O mistério, que nos envolve até o final, desenrola-se com o assassinato de mulheres que mantém aparentes relações com vampiros, chegando a um clímax surpreendente (talvez nem tanto para mim, que antecedentemente já havia assistido a série de TV baseada na obra da autora, True Blood). Agradou-me, também, o fato de Charlaine, apesar de mostrar uma sociedade bem atual de vampiros, não “os desonrar o nome”, usando elementos clássicos como alho, estaca, prata e o sol, sem maiores invenções absurdas que poderiam trair o enredo.
Nunca julgue um livro pela capa, diz um antigo ditado, e quando falamos da obra da autora, isto torna-se certo. Apesar da capa aparentemente infantil e do sub título modesto, a premissa de Morto até o anoitecer é inegavelmente adulta. Os personagens são adultos e de caráter bem desenvolvido, assim como a ardente Sookie. E o livro, de fato - assim como a série - não economiza em cenas eróticas.Todavia, algumas coisas me incomodaram no decorrer da obra de Charlaine: O mau desenvolvimento e personagens que poderiam ser bem mais aprofundados - como Lafayette -, o uso de gírias e termos dispensáveis e grotescos tornam não só a personagem principal como o livro fúteis.
De qualquer maneira, a leitura de Morto até o anoitecer não deixa de ser leve, envolvente e divertida com a narrativa de Sookie, entre metamorfos, vampiros e assassinatos. Aconselho também o seriado True Blood - que chega até mesmo a ser melhor que o livro por não se limitar apenas ao ponto de vista da protagonista, explorando personagens pifiamente descritos e acrescentando coisas a série.
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