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Sobre chuvas e liberdade

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Madrugada chuvosa. Havia mais naquele som místico da chuva encontrando o asfalto do que podia se ver ou compreender. Havia o nostálgico e tão próximo aroma de terra molhada, que com os olhos cerrados, podíamos sentir a tranqüilidade nos preencher. Estávamos ali, sem censura, apegados a algo tão inerente e simples que apenas com delicadeza podia-se compreender o que trazia. Havia, tão mais, o vento frio encontrando-nos a pele, trazendo-nos a sensação de espaço e ar puro. Refrescante hálito da noite, toque leve e sussurro delicado da chuva. Caminhar pelo asfalto úmido na madrugada ruidosa da chuva. Sentir-se naquela escuridão tranqüilizante e frígida, abraçado pela noite e pelo frio. Correr, caminhar, abrir os braços a uma liberdade silenciosa e de tão grandiosa quase furtada e repentina. Liberdade inventada, é claro. Liberdade dentre sons e texturas na calada da noite. Respirar com prazer a nostalgia de um passado inexistente. Raios e trovões eram o arfar da vida luminosa daquela alvorada. Oh, sim, certamente havia mais naquele místico som da chuva do que podia se ver ou compreender. Havia apenas o incompreensível e ele era o bastante. Ele era o necessário. Havia tão mais que tudo ou nada. A mera chuva - a vulgar chuva ou a indiferente chuva – ou, aqueles, a magia transcendente na calada da manhã. Um mero momento em que tudo se esvaía e sobravam apenas os sons, as texturas, o frio. A chuva, a madrugada, os aromas.  A liberdade inventada.

Ponto zero

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E ali ele estava, em seus passos calculados e desengonçados, os olhos dispersos e a mente em um turbilhão de questionamentos efêmeros. Eles tampouco chegavam a se formar com solidez, sendo submissos a si mesmos. Perguntas que fazia a si e que eram certamente surpreendentes, mas que nunca se solidificavam ao ponto de um objetivo. Ele baseava-se no tampouco. Tampouco adiantariam questionamentos sem respostas e tampouco adiantariam respostas se seus questionamentos eram irrefutáveis. Assim ele era. Tampouco importava-se em ser consumado.

Caminhava sem destino, observando com desinteresse os transeuntes que pareciam estar sendo vítimas de uma pressão ofuscada. O suor escorria-lhe as faces e havia certa pressa nos passos atropelados. Era algo estranho, certamente, aquela afobação. Ou talvez fosse apenas sua placidez inerente que o fazia um ponto errante. Assim ele era. Sempre vivendo a um passo atrás da realidade. Uma vantagem ou desvantagem em pontos de vista. Em passos lentos, ele chegara ao centro movimentado da avenida. Os sons, as cores, as nuances. Tudo parecia, de alguma forma, ali acentuado. Nada que os outros, com seus olhos sempre desatentos, pudessem reparar.

A rotina vulgarizava. Mas ele não a sentia por não a viver. Os dias flutuavam sob seus olhos. Ou talvez fosse ele quem flutuava sobre os dias. Tampouco importava, sim. Tampouco. Mas ele esperava, com paciência leal e recriminada pelos de fora, que por fim o sinal vermelho determinasse o desgovernado movimento dos motoristas apressados. O verde convertera-se ao gritante laranja de alerta que, em minutos lânguidos, assumira o forte tom vermelho. Talvez fosse irrelevante a descrição minuciosa daquele ciclo rotineiro, mas daquela usualidade surgira tão repentinamente o que ele observara. A realidade, por um momento, parecera ser jogada para cima dentre estrelas e meteoros. Dentre as bifurcações da avenida os tons vermelhos haviam se encontrado, pela primeira vez, em sincronia irreversível. O sinal indicava a ordem e ali, onde as nuances e os sons pareciam sempre estar tão atentos, haviam se dissipado naquele estagnar imperceptível.

O ponto zero. O dissipar da pressão. Movimento contido. Havia não a lentidão, mas o silêncio em um absoluto quase duvidoso. Não haviam vozes, apenas olhares indecifráveis. Meias-palavras não pronunciadas. Braços não estendidos. Questionamentos não solidificados. O sinal determinava, no vermelho gritante, a realidade que, subitamente, fora jogada ao alto e caído bruscamente.

E fora, certamente, uma curta usualidade. Para ele, porém, mais do que isso. Fora mais do que o simples e do que o rotineiro. Haviam sido as engrenagens da realidade que, em um momento, haviam parado. Jogada ao alto – em ponto zero – e caído bruscamente. E então, inerente de sua parte, questionara-se o porquê. Ele sempre funcionara por engrenagens paradas. Ele nunca, junto a realidade, levara a queda brusca. Sempre estivera flutuando sobre ela. Sempre estivera em ponto zero.

Cores opacas

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Dizia-se que sua principal inspiração vinha dos sonhos. Imaginava-os como uma parte da realidade que nos escapava da visão e aparecia, a partir do subconsciente, em desejos e medos fantasiados. A necessidade de evitar a realidade, afinal, era crucial à todos. E a ele, principalmente. Pois escrevia não sobre o seu cotidiano. E certamente nunca escreveria. Suas letras e entrelinhas eram feitas como um subterfúgio da realidade, pois se por um momento a encarasse, a queda seria certa e fatal. Necessitava do irreal por um instante. Era o único ar que respirava com prazer.

E certamente este fato era o bastante para deixar claro que a idéia de já não ter a capacidade de alcançar o irreal o deixaria a beira de um abismo. E o quanto temia que isto acontecesse tornou-se realidade. A realidade que tanto temia e evitava agora o encurralava. Fora numa manhã insípida e nublada do qual o céu assumia um tom leitoso e cinzento do qual ele, desperto de uma noite sem sonhos – aqueles que tanto o inspiravam –, sentara-se e fitara o papel em branco com certo receio. Nunca o enxergara daquela maneira, tão vazio e real. Tão cru e sem vida. Poucas letras havia delineado quando percebera estar também cru e sem vida. Não havia um turbilhão de palavras em sua mente. Aquelas eram forçadas como seu universo irreal. Mas até mesmo aquele universo agora o faltava. Estava sob a placidez da realidade.

E o quanto sentira-se angustiado ao ver que tampouco sabia que rumo a suas palavras haviam tomado. Via apenas a escuridão – e não, não era a escuridão. Era aquele universo sem tantas cores ou movimentos, sem espirais, cogumelos ou monstros. Era quase escuro comparado aos seus sonhos, não era? Sentia-se um estranho no lugar que o pertencia. Um estranho no ninho. E ali ele estava, as mãos posicionadas sob a folha em branco onde cinco ou seis palavras pousavam. Aquelas palavras cinzentas. Aquelas palavras insípidas. Eram apenas palavras. E ele nunca usava palavras. Usava sonhos.

E ali estava ele, agora deitado sobre o sofá esperando que seus sonhos o invadissem. Que aquelas nuances surpreendentes o trouxessem um mundo tão advento quanto o País das maravilhas. Mas, pela primeira vez, novamente apenas a escuridão o permeava, sem sons ou sem luz. Apenas aquela realidade crua, sem letras ou entrelinhas. A escuridão se chamava realidade. E ao abrir os olhos, ela permanecia, tão impiedosa e recusando-se a ir embora. Talvez devesse compreender. A evitava há muito tempo, deixava-a contida o bastante para uma quase não-existência. E agora chegara um ponto sem retorno do qual a realidade, como uma represa, quebrava os muros que construíra entre mundos e sonhos.

E, agora, fitava a folha novamente. As cinco palavras escritas em letras redondas e inseguras. “A escuridão adornou-me. Salve-me disto.” Com incerteza inerente a alguém que levara uma queda brusca e machucara-se o bastante, pousara a tinta no papel. Haviam outros tons, havia outro ar. Havia, afinal, outra realidade. Uma sem tantas cores, uma sem espirais, cogumelos ou monstros. Talvez devesse aprender a se adequar a outros mundos. Mesmo que, em seu âmago, soubesse que aquele não lhe pertencia.

Desmascare

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De definitivo, há um segredo. Não há vida em você.

Seu toque é cálido e seus olhos são vivos, sua pele é corada e um sorriso imutável parece descansar em suas linhas ilegíveis. Uma máscara não pode ser a mesma por tanto tempo, e ninguém é responsável por isso. Você sabe que ela cai e se desprega lentamente, e sabe que não haverá uma face quando esta for revelada. Escape em gélidos segundos sob o abismo que lhe persegue, pois sua alma já não suporta a própria existência. A guerra inicia-se em um ciclo e logo o conflito atingirá o ápice. Respire enquanto sua capacidade não foi abafada por tanto que guarda. Viva mesmo que saiba que a vida já se esvaiu por muito tempo. Finja. Dissimule. Ninguém olhou tão fundo quanto eu, tranqüilize-se. Você só sabe as palavras certas. Você só sabe os momentos certos. Você, porém, não sabe o que mais lhe consome. O que mais lhe mata. Eu lhe conheço melhor do que isso, mesmo que você tampouco saiba quem eu porventura sou. Lhe compreendo mais do que ninguém e vejo sua destruição em momentos silenciosos. A quietude já não existe mais.

Não há vida em você.

Encanto quebrado

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Éramos dois.

Desde o início, éramos dois. O amor nasce de atos incompreensíveis como um olhar, podendo ser efêmero e vão, mas em seu momento tão delicado e vulnerável a um único trinque. E naquela noite o trinque fora feito não por um golpe certeiro e súbito de dor, mas por limites apagados. Havíamos nos amado por um único instante. O último dia mágico se acabara. Nosso amor, nascido de um pueril olhar na noite agitada da cidade, se esvaía junto a ele. Poderíamos apenas nos afastar e nos despedir do encanto quebrado ou permanecer ali dentre os lençóis brancos esperando a maldição.

E como éramos ambos adeptos aquela ácida consciência de que um dia tudo acabava, sabíamos que aquele dia - marcado mentalmente no calendário - havia chegado. Dali, éramos permitidos a voltar nos limites e ignorar tudo o que acontecera - as noites e o amor súbito. Há muito tempo nossa existência conjunta não era a mesma, a magia que começara acabara e faltava-nos a coragem de encarar o inevitável. Estávamos presos a cadeia de valores, dentre as grades abertas que agora esperavam apenas nossa saída. Estávamos com medo do que viria a seguir, pois nos odiávamos. Tudo o que existia, depois de todo aquele tempo, era o ódio. O amor fora momentâneo, mas intenso em seu momento para nos selar como eternos amantes. Amantes corrompidos ao ódio. Desejávamos o pior para nós mesmos. A morte, sim, que nos afastasse sem que justificativas ou situações embaraçosas surgissem e nos levassem ao ápice, que uma vez quebrado, representaria um fim inimaginável. Nós estávamos sendo clarividentes por todo aquele tempo, guerreando com nós mesmos e tentando enfrentar barreiras invisíveis, mas nunca poderíamos dizer aquelas palavras, simples palavras. Eu estou partindo.

Mas sob aqueles dias de pura tortura que tínhamos de suportar nossas presenças nos sufocando gradualmente, o limite fora apagado. O último dia de mágica chegado e a maldição escondia-se sorrateira dentre olhares despretensiosos. Sabíamos que dali para frente um passo deveria ser dado, e estávamos esperando ansiosamente quem iria primeiro enfrentar a verdade. Sentados, silenciosos, nos fitando dentre os sons e as cores da cidade, aquela loucura gradual surgia à cada vez mais com a certeza de que nenhum de nós dois queimaria o orgulho. Era um jogo com conseqüências tão doces.

E aquele era o primeiro estágio de nossa tragédia: A loucura. Apenas o primeiro. E era quase inacreditável ter a certeza de que haviam sido minutos, horas, dias e meses nos suportando e esperando o limite acabar. Poderíamos apenas ter escapado no inicio, ignorado aquele cândido amor que se convertera ao ódio. Aquele sentimento-paradoxo. Eu poderia facilmente afirmar, em outras palavras, que havíamos enjoado de nossas insuportáveis presenças confinadas em um único espaço, mas que uma série de fatores incompreensíveis nos impedia de nos livrar daquilo.

Todavia existem os limites, e desses não podemos duvidar. Pois afinal, eram os limites que quebravam tudo que um dia pudera existir e apenas nos determinava e destruía o nosso medo. Estávamos cegos pela raiva e pelo ódio - nossos limites estavam rasgados - e por isso aquela guerra que fora abafada sob lençóis de silêncio por tanto tempo eclodia quebrando fronteiras. A nossa destruição começara, lenta e doce. Ela se levantara, seus olhos brilhando pela ira, seu corpo quase curvado por tanta cólera existente em suas veias, e tudo o que eu presenciava era um reflexo fiel a tudo o que eu sentia.

Ela fora rápida ao posicionar suas mãos leves ao meu pescoço, apertando-o com força imensurável ao som de Beethoven. E eu sentia o asfixio, engasgava-me com o ar pífio debatendo-me e repelindo-a. E então, com mesma força, meu punho fechado havia atingido seu rosto delicado, fazendo o filet de sangue cortar o ar. E repetidas vezes eu fazia aquilo, com o prazer da raiva, vendo seu rosto transformar-se lentamente num mero borrão, suas mãos pequenas tentando se defender, gritando e xingando inutilmente. E mais força, lembrando-me do quanto sua presença me reprimia, esmagando-a contra a parede, os cabelos louros manchados pelo sangue.

Eu quase esquecera, porém, que o ódio dentro dela era tão maior ou igual ao meu. Sua força e seu ar não se esvairiam tão rápido, movida pela retaliação similar a minha, com toda sua força flexionando os pequenos braços em repetidos golpes frenéticos. E então afastei-me, manchado por seu sangue, gargalhando de nossa situação decadente. Éramos tão ridículos. E ela, agora, estava desgrenhada, ensangüentada, frenética. Um desejo assassino e absurdo naqueles olhos de boneca. E tão rápida quanto a brisa, arrancara o abajur com fúria e lançara em minha direção.

Fora o necessário para que eu entendesse o quanto sua insanidade extrapolava limites naquele instante. E afinal, eu era tolo de já não ter percebido isto. Gostaria de vê-la sofrer mais, já que minha vantagem naquele instante era gritante. O último dia de mágica encerrando-se com uma maldição. Segurei seu corpo frenético, enquanto o grito rasgava sua garganta. Não nos importávamos com ouvintes ou testemunhas. A escadaria estava vazia, preenchida apenas pelos sons da cidade. A pele rasgada, a dor, o sangue. Os gritos. Ao que poderia ser a simples saída, convertera-se àquele poético aniquilamento. E então eu a empurrara como sempre desejara, vendo-a tropeçar em seus próprios pés rolando os degraus inertemente. Sentia a vitória em meus pulmões, a cada pulsar de meu peito e resfolegar. E gostaria de mais. Gostaria que sua forma se esvaísse. Gostaria que fosse um mero espectro sanguinolento e sem vida. E, mesmo assim, aquele desejo tão cruel nunca passaria.

E desci, seguindo a trilha de sangue e observando-a em pé no hall, um sorriso ensangüentado adornando a boca rasgada. Ela não desistiria, pois isto estava em suas regras e nas minhas. Não desistiríamos. A existência de um seria como a sentença a existência do outro. Estaríamos eternamente amaldiçoados se existíssemos em mesma dimensão. Não deveríamos desistir e não desistiríamos. E então ela recuara, ainda com aquele esgar em seu rosto, adentrando a rua movimentada e atraindo aqueles olhares espantados. Sumira dentre os transeuntes como um fantasma, escapando de minhas mãos sedentas por destruição. E eu estava correndo, sem ar, tentando-a avistar dentre a multidão. E o que pensavam, aqueles outros, com os olhos espantados nos fitando? Amantes desiludidos, sim. Mas éramos mais do que isso. Estávamos fora de entendimento, fora de qualquer suposição. Estávamos fora de razão, presos a um ciclo.

Meu fôlego estava escasso, as intempéries daquela cidade movimentada sufocando-me. Esta era sua estratégia. Eu seria dilacerado sem um toque. Mas, sob meu azar, a cortina de sorte sobreveio num instante. Avistei-a, aquele fantasma ao canto oculto pela cortina de escuridão, um beco escuro adentrando a parede. E, para meu deleite, esgueirado como um demônio na escuridão, observei sua morte. Seus suspiros e gemidos de dor, sua tosse quase senil... Estava acabado. Ou ao menos, naquele momento, estaria, pois seu final seria dado com um deleite imensurável e feito por minhas mãos sedentas por sentir seu sangue cálido. Aproximei-me com passos lentos e um sorriso de triunfo, vendo-a afastar-se lentamente e rindo com gosto ao perceber o beco sem saída da mesma. Fora tudo tão fácil. Absurdamente e surrealmente fácil.

Num instante que não pude contabilizar, enquanto minhas mãos se direcionavam com prazer ao seu pescoço alvo, fui impedido por uma dor latejante, e agora eu estava sobre o chão, debatendo-me e gritando como um fraco. A silhueta dela a minha frente, que ria como a dissimulada que era, a corda de aço do qual atingira-me em suas mãos. Eu deveria cogitar um truque escondido sob aqueles olhos falsamente cândidos, mas havia sido inocente e confiante o bastante para, mais uma vez, confiar nela. E, sem reação ou força, permaneci parado fitando-a, esperando por um impetuo de piedade inexistente.

E então o golpe atingiu minha face consecutivas vezes, dentre meus gritos e arfares, meu corpo sendo cortado pela fina corda de metal sem piedade. Eu sabia que aquele era apenas o inicio de sua satisfação, agora atingindo-me com força inacreditável com seus punhos. Naquele momento não existia medir forças, pois nossa força, dependente de quem éramos, baseava-se ao ódio. Como uma possessão. E rasgávamos-nos sem piedade, dilacerávamos e nos aniquilávamos. Uma destruição cheia de poesia.

Segurei seus punhos com dificuldade, sentindo meu corpo arder por inteiro e um grito involuntário escapar dentre meus lábios. E ela ria perante meu sofrimento, agora encurralada. Ria e debatia-se com puro deleite. O que naquele momento me surpreendia era o quanto a situação, se vista por um ponto de vista superficial, era inesperada. Estávamos tão cegos por amor por um tempo tão grande que tudo tornara-se distante e o existente fora apenas aquela cândida ternura. Mas, se nos atrevêssemos a olhar para baixo em um único momento, tudo iria desmoronar. As nuvens sumiriam e seriamos levados ao inferno por enjoarmos um do outro. Por mágica não era tão trágico se não olhássemos para baixo, porém, o encanto acabara. O relógio tiquetaqueara a meia-noite.

Empurrei seu corpo com violência em direção a parede, colocando-me a sua frente parado, tentando não deixar transparecer minha máscara transbordante de derrota. Eu quase duvidava do sentimento em meu peito, mas isto seria contraditório já que meu desejo cegava qualquer incerteza. Minha mão havia atingido sua face num som que ricocheteara as paredes do local. Eu percebera que até mesmo tocá-la era como uma maldição para mim, apesar de ao mesmo tempo proporcionar-me o prazer por vê-la tão destruída quanto eu...

E ela, passionalmente, retribuíra o gesto. O seu mero toque trazia-me maior ira, se isto era possível no momento, e então com o punho fechado e com força imensurável eu atingira seu rosto, comprimindo sua cabeça loura contra a parede. E a esmurrara consecutivas vezes, recebendo seus chutes e golpes certeiros de fúria. Estávamos, por fim, terminando aquela mutilação. Nossas forças se esvaiam a cada golpe dado, estávamos fracos e a vida já se esvaia lentamente... Iríamos desistir?

Eu não sabia quanto tempo ainda havíamos continuado daquela maneira, entre tapas e golpes, nos mutilando, nos aniquilando sem piedade e descontando tudo o que havíamos guardado por tanto tempo. Sabia apenas que a manhã havia chegado e com ela nossa desistência.



Segui através do cândido dia, ignorando os olhares dos poucos transeuntes que caminhavam fitando-me com receio e preocupação. Minha roupa estava vermelha pelo sangue, meu corpo cortado e minha face desfigurada. Um boneco de trapos. Eles certamente não poderiam imaginar ou supor o que levara-me a tal estado, e mesmo que por um momento pudessem ter conhecimento, nunca entenderiam. Nunca, definitivamente, compreenderiam o incompreensível. Certamente também nunca entenderiam que daquela destruição assustadora renascia uma liberdade que eu almejara por tanto tempo.

Subi os degraus resistindo ao peso de meu corpo que impulsionava-me gradualmente para baixo, apoiando-me e ignorando a tontura gradual. A porta de meu apartamento estava entreaberta, a trilha de sangue da qual eu seguira terminando no carpete. A sensação de horror e compreensão subira-me o peito, aquela vontade selvagem de gritar e soltar todas as maldições existentes. Garota travessa! Então ela voltara, docemente, disposta a dar-me um fim definitivo conhecendo minha fraqueza. Eu deveria saber que aquele jogo - aquele ciclo doentio - não terminaria tão simplesmente. Adentrei o local, agora meus últimos resquícios de força se esvaindo, esperando por quaisquer surpresas e disposto a ceder a elas. Realmente surpreendi-me, mas tal surpresa acompanhada por meu riso de prazer. O corpo dela estava jogado ao assoalho, sem vida, lívida com sua face tão desfigurada quanto a minha e seu corpo decrépito. Com o deleite da vitória - ainda rindo de prazer ao ter consciência de sua derrota - desabei ao seu lado cansado como estava e, tranquilamente, morri. Juntos até o fim como cálidos amantes...

Rei

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Eu os esperava para o chá da tarde. De convite desprovia, já que as princesas e duques já daquele costume nutriam por anos. Eu era o rei, pacifico e impiedoso, suspeito em poucas palavras e manipulador sem nenhuma. Adoçava com cianureto a essência da camomila, observando, com um sorriso imperceptível e aprovador meus convidados adormecerem. Eu era assim. Tão indiferente quanto cruel. Tão destruidor quanto sádico. E resumi-me era algo fácil, porém insolente. Tanto eu gostava de envenenar aos outros com minha persuasão, que, vejam, não era preciso um dedo mover para destruir palácios, castelos ou montanhas. Era necessário uma oferenda aos fracos, uma oferenda maior aos fortes, e um mero sorriso aos impossíveis, afinal, eles dali assinavam uma sentença irreversível.

Assim eu era, em meu trono observando as labaredas e cantarolando com elas. E todos conheciam minha culpa, nos olhares eu via isto. Eles gostariam de consertar seu rei como os pais consertam um filho, e em troca, eu os matava. Eu os negava. Não, isto era no fim, pois no inicio eu os guiava por um trilho preenchido de imperceptíveis más intenções, de irrevogáveis mentiras dos quais os mais espertos descobriam. E, bem, nelas acreditavam. E então no fim deste trilho, escuro e cavernoso, havia a decepção. Eu os enganara. E continuaria enganando.

Naquela terra, com uns eu ainda nutria de certa piedade - o que de mim originava-se um disparate, mas minha piedade valia a um vintém da qual, em poucos instantes, eu retiraria. Minha bondade repentina era como o trilho, no fim haveria a decepção, e meu ódio era dilacerante, assustador, resumido num único olhar, sem muitas palavras senão a ordem singular. E, ora, quais dos meus súditos ousaria me contrariar? Havia os que tentavam com teorias arguciosas, no tom pomposo, na malícia invejosa ao ver minha falsa oscilação, mas, ora, tanta inteligência cegava o tão simples paradoxo. Havia, também, os súditos que me contrariavam. Destes, o que eu podia fazer senão dilacerar? Não com meu brilhante punhal, mas com minhas ácidas palavras. Eu conhecia cada um e seus segredos, tão estampados quanto ocultos, cada um e suas fraquezas, e delas explorava e degustava sem demonstrar conhecê-las, apenas fingindo a irônica coincidência que fazia, de supetão, a reverência surgi-lhes.

Um rei com a brilhante coroa e as farfalhantes vestes brancas, o sorriso de um anjo, o âmago de um demônio, em meu trono repousava. Aquele era meu mundo e aqueles eram meus subordinados, tão tolos ao ponto de não terem a consciência disto. Eu era astuto e silencioso. Irrevogável, inviolável, esdrúxulo, sádico, mas acima de tudo, inconsertável.
 
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